A COP-26, conferência das partes sobre mudanças climáticas da ONU – ocorrendo em Glasgow, na Escócia, está contribuindo com o movimento pela criação de um mercado de crédito de carbono regulado[1]. Hoje, no Brasil, a maior parte desse tipo de transação ocorre de forma apenas voluntária entre empresas que querem compensar as emissões de gases do efeito estufa.
É importante dizer que o país possui um grande potencial para cumprir o Artigo 6 do Acordo de Paris[2], assinado por 197 países, e que propõe a redução das emissões para que o aumento da temperatura global não passe de 1,5 a 2ºC até 2030. Pensando nesses dois fatores foi criado o PL 528/21, que vem sendo aprimorado.
O que é o PL 528/21[3]?
O Projeto de Lei 528/21 foi criado pelo deputado Marcelo Ramos (PL/AM) e defende os seguintes pontos[4]:
- Propõe um sistema brasileiro de comércio de emissões e um sistema nacional de offsets público;
- Institui o Mercado Brasileiro de Redução de Emissões (MBRE) no mercado regulado, que vai conduzir a compra e venda de créditos de carbono no Brasil;
- Cria regras para registro, certificação e contabilização dos créditos de carbono no mercado voluntário;
- Fixa o prazo de cinco anos para o governo regulamentar o programa nacional obrigatório de compensação de emissões de carbono.
O objetivo é que as empresas comecem participando do mercado voluntário e, pouco a pouco, evoluam para o mercado regulado, oferecendo, assim, tempo de adaptação.
O que propõe a alteração do PL 528/21?
Dentre os objetivos do projeto, estão o de criar parâmetros para a precificação do carbono e mostrar oportunidades de financiamentos das reduções de emissões por meio de arranjo institucional. Algumas empresas, como Accor, Natura e Norsur já deram seu apoio à iniciativa[5].
O que as empresas podem fazer para contribuir com a redução das emissões de carbono[6]?
1. Reciclar
Apenas uma lata de lixo que é reciclada pode economizar energia o suficiente para gerar energia por uma hora em um computador. Além disso, uma tonelada de papel reciclado tem a capacidade de salvar até 17 árvores do desmatamento, bem como 7000 galões de água, 380 galões de óleo, 4000 kWh de energia e três jardas cúbicas de aterro sanitário.
Ainda, segundo um estudo de 2019 feito pela TopLine Film revelou que 73% dos trabalhadores queriam que a empresa fosse mais sustentável e 24% disseram que recusariam trabalho em uma empresa que não fosse sustentável.
2. Usar fontes recicláveis
Usar papel reciclável pode ajudar a reduzir o desmatamento e a preservar os hábitats naturais. Por exemplo: a população mundial de insetos diminuiu em quase 25% nos últimos 30 anos e o maior motivo disso estar acontecendo é a destruição dos hábitats. Deve-se considerar que usar produtos reciclados pode onerar os custos, porém, o risco de não usá-los implica em custos e prejuízos inesperados como multas ou sérios danos à reputação e imagem de marca, que é um bem de alto valor intangível, mas que é levado em conta na avaliação da empresa.
3. Contratar ou firmar parcerias com fornecedores sustentáveis
É importante verificar se as empresas terceirizadas ou parceiras seguem uma agenda sustentável, pois de nada adiantará a sua empresa realizar todas as mudanças necessárias para se adequar a uma realidade mais sustentável, seguindo as práticas ASG, se ela estiver ligada a empresas que não estão alinhadas com o mesmo propósito, pois, indiretamente, isso significará que a sua empresa está financiando práticas não sustentáveis. Levando em consideração os dados citados acima, sobre 73% dos trabalhadores desejarem uma empresa mais sustentável, essa atitude pode acarretar, futuramente, em perda de força de trabalho e talentos humanos adquiridos por meio de investimentos.
4. Realizar reuniões e eventos online
Isso já está acontecendo, pois muitas empresas perceberam, devido à pandemia, que não eram necessárias tantas viagens para participar de reuniões e de eventos, já que hoje temos diversos recursos tecnológicos disponíveis. Consequentemente, com as reduções de viagens, também é reduzido o carbono, já que os transportes são responsáveis por 1/5 das emissões globais de carbono.
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5. Utilizar transporte público ou aplicativos de carona
Ainda falando das reuniões e eventos, caso seja realmente preciso o deslocamento até o local e se esse local for de curta distância e numa cidade com boa oferta de transporte público e de outros serviços, como é o caso de São Paulo, os funcionários da empresa podem ser incentivados a fazer uso deles. Sabemos que a cultura do carro é muito forte nos centros urbanos, mas sempre que possível é importante conscientizar os colaboradores para a redução de uso do carro próprio, através inclusivo de aplicativos de compartilhamento que a empresa pode ajudar a custear para horários e destinos em que o transporte público não seja tão eficiente, podendo inclusive apresentar uma economia para colaboradores e empresa.
6. Investir em energia e equipamentos verdes
Fazer uso de painéis solares, instalar luzes de LED e desligá-las ao sair do escritório e durante o dia, se houver bastante luz solar. Também é possível habilitar a economia de energia e de bateria nos computadores e celulares de trabalho. Por fim, pode-se reduzir a temperatura do termostato: apenas 1ºC a menos pode reduzir a energia de aquecimento do ambiente em 13% e programar o desligamento automático para horários fora do expediente.
7. Comprar mobiliário usado
O benefício de se comprar um mobiliário usado é que além de economizar, também incentiva o reaproveitamento e a redução de desperdícios. Detalhe: muitas empresas vendem seu mobiliário quando fecham ou quando passam por uma renovação, o que significa que é perfeitamente possível adquirir móveis de qualidade por um preço mais baixo.
8. Conversar com seus funcionários e clientes
Lembre-se que os funcionários e os clientes são os seus melhores ativos e podem sempre oferecer novas ideias, novas formas de tornar a empresa mais sustentável, fazendo com que eles se sintam mais colaborativos por ajudarem a pensar em propostas benéficas a todos. Esse processo de escuta social pode ser formal ou informal, através de pesquisas, sondagem telefônica ou até mesmo via SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) e Canais de Ética.
Um breve exemplo da Accor[7]
A rede de hotéis tomou algumas medidas para colaborar com a redução das emissões de carbono, já que tem como objetivo diminuir em 46% a emissão de GEE (Gases do Efeito Estufa) até 2030 e de se tornar carbono neutra até 2050. E é muito importante essa decisão porque a energia de redes de hotéis é responsável por 68% do total de emissões. Por sua vez, os alimentos e bebidas consumidos no interior de um hotel são responsáveis por 12% da emissão e a manutenção de equipamentos e lavanderia é responsável por 9%.
As medidas que a Accor tomou incluem, por exemplo, instalação de placas de energia solar para pré-aquecimento da água do banho. Somente essa atitude já contribuiu para reduzir em 53% a emissão de carbono entre 2016 e 2020, o que corresponde a 5319 toneladas a menos.
Conclusão
Além do Projeto de Lei e das atitudes que cada empresa pode tomar para contribuir, há também uma associação de empresas, chamada de Aliança Brasil NBS, que atua com soluções ambientais e climáticas com base na natureza. Esse grupo foi criado objetivando uma representação organizada e a ideia é realizar uma transação para uma economia de baixo carbono, sendo que, durante esse período de transição, a compensação irá direto para recursos para a floresta. Outras discussões, setoriais, estão acontecendo, com projetos tramitando na Câmara.
Ou seja, há uma movimentação grande acontecendo por parte de organizações para construir uma realidade mais sustentável. Recentemente, a pandemia, a crise econômica, a crise hídrica, o desmatamento, as queimadas e diversos outros problemas têm colaborado para aumentar a conscientização do quanto é essencial que ocorra uma mudança urgente nas práticas empresariais. O “A”, da sigla “ASG”, está se tornando cada vez mais importante.
Para mover as políticas ambientais é necessário dinheiro, seja por meio de exportação de créditos ou pela atração de financiamento climático, e coordenação nacional em relação ao mercado de carbono e à regulação de sistemas de compensação[8]. Daí o motivo de ter tantos projetos agindo isoladamente. Mas ainda bem que tem.
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[1] Disponível em https://epbr.com.br/marco-regulatorio-do-mercado-de-carbono-deve-ser-lapidado-para-votacao-antes-da-cop26. Acesso em 30 de setembro de 2021.
[2] Para mais informações sobre o Artigo 6: https://www.capitalreset.com/destrinchando-o-artigo-6-do-acordo-de-paris-e-suas-oportunidades-para-o-brasil/. Acesso em 30 de setembro de 2021.
[3] Disponível em https://www.camara.leg.br/propostas-legislativas/2270639. Acesso em 30 de setembro de 2021.
[4] Disponível em https://epbr.com.br/marco-regulatorio-do-mercado-de-carbono-deve-ser-lapidado-para-votacao-antes-da-cop26/. Acesso em 30 de setembro de 2021.
[5] Disponível em https://valor.globo.com/publicacoes/suplementos/noticia/2021/09/21/mercado-preve-avanco-com-marco-regulatorio.ghtml. Acesso em 30 de setembro de 2021.
[6] Disponível em https://www.shredstation.co.uk/blog/11-ways-businesses-can-reduce-carbon-emissions/#:~:text=Investing%20in%20green%20energy%20and,business%20has%20the%20cash%20reserves. Acesso em 30 de setembro de 2021.
[7] Disponível em https://valor.globo.com/publicacoes/suplementos/noticia/2021/09/21/mercado-preve-avanco-com-marco-regulatorio.ghtml. Acesso em 30 de setembro de 2021.
[8] Disponível em https://epbr.com.br/necessidade-de-compensar-co2-sera-menor-a-medida-que-empresas-avancam-em-planos-de-reducao-de-emissoes/. Acesso em 30 de setembro de 2021.
Referências
BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei nº 528, de 2021. Regulamenta o Mercado Brasileiro de Redução de Emissões (MBRE), determinado pela Política Nacional de Mudança do Clima – Lei nº 12.187, de 29 de dezembro de 2009. Brasília: Câmara dos Deputados, 2021. Disponível em: https://www.camara.leg.br/propostas-legislativas/2270639 . Acesso em 30 de setembro de 2021.
LOTURCO, Roseli. Mercado prevê avanço com marco regulatório. Valor Econômico, São Paulo, 21 de setembro de 2021. Disponível em: https://valor.globo.com/publicacoes/suplementos/noticia/2021/09/21/mercado-preve-avanco-com-marco-regulatorio.ghtml. Acesso em 30 de setembro de 2021.
MACHADO, Nayara. Marco regulatório do mercado de carbono deve ser ‘lapidado’ para votação antes da COP26. EPBR, 31 de agosto de 2021. Disponível em: https://epbr.com.br/marco-regulatorio-do-mercado-de-carbono-deve-ser-lapidado-para-votacao-antes-da-cop26/. Acesso em 30 de setembro de 2021.
MACHADO, Nayara. Necessidade de compensar CO2 deve ser menor, à medida que empresas avançam em planos de redução de emissões. EPBR, 26 de agosto de 2021. Disponível em: https://epbr.com.br/necessidade-de-compensar-co2-sera-menor-a-medida-que-empresas-avancam-em-planos-de-reducao-de-emissoes/ . Acesso em 30 de setembro de 2021.
SHRED STATION. 11 Way Businesses Can Reduce Their Carbon Emissions. Shred Station. Disponível em: https://www.shredstation.co.uk/blog/11-ways-businesses-can-reduce-carbon-emissions/#:~:text=Investing%20in%20green%20energy%20and,business%20has%20the%20cash%20reserves. Acesso em 30 de setembro de 2021.






